9.2.11
Desde que os tempos mudaram
Quatro e vinte e dois. Mariana já havia preparado um chá e agora se encontrava em pé, em frente à janela da sala de estar do seu pequeno apartamento, admirando a cidade adormecida. Era inevitável não olhar logo abaixo, para a calçada, e imaginá-los caminhando sobre ela, mãos dadas, sorrisos a postos. Ou olhar para o pub quase em frente ao edifício em que reside e reconstituir as noites animadas que passaram sentados, bebendo, conversando, sozinhos ou com amigos, mãos atadas sobre o colo do outro. Esse era um dos maiores vazios que havia deixado com a sua ausência: a sua mão para segurar. Ela representava muito mais para Mariana do que uma convenção, do que um costume dos amantes. Quando Pedro segurava sua mão, ele segurava-a por inteiro. Ele representava segurança, uma sombra capaz de protegê-la da luz, uma luz capaz de mantê-la a salvo da escuridão. A caneca de porcelana cheia de chá aquecia sua mão, que a envolvia numa tentativa falha de suprir a sua necessidade de calor, mas de um calor que fosse vivo, de um calor que a fizesse viver novamente.
Essa invasão de pensamentos e lembranças era a deixa que o sono precisava para desaparecer de vez. Isso já vinha acontecendo há um bom tempo - desde que os tempos mudaram. Noites em claro, dias que não passavam de uma contagem regressiva de horas, minutos e segundos para chegar ao seu apartamento e enterrar-se na cama. Não rezava mais. Perdera esse costume ainda adolescente, apesar das súplicas de sua mãe católica. Não que não acreditasse em “algo maior”, denominado de diversas maneiras de acordo com cada religião de existe por aí. Esse era apenas um costume que havia ficado para trás, e que ao menos era seu: era algo que lhe fora ensinado quando Mariana ainda não havia construído seus próprios critérios de julgamento, época em que apenas se aceita o que é imposto, sem qualquer contestação. A decisão de não rezar não era certa ou errada, era sua, assim como as demais decisões em relação à sua vida. Mariana não rezava, preferia induzir sonhos. Quando deitava sua cabeça sobre o travesseiro macio, resgatava as melhores lembranças e tornava-as realidade, modificando-as sem pudor algum, de acordo com as suas vontades, usufruindo de uma liberdade que só possuía em sonho. Mariana fazia isso até os suspiros nostálgicos transformarem-se em uma respiração inaudível e ritmada, indicando que o sono chegara, arrebatando a indutora de sonhos para outra dimensão, sobre a qual ela não detinha poder algum.
Cinco para às cinco. Nem mesmo o melhor dos sonhos induzidos era capaz de despertar em Mariana o sono essa noite. Sentada no tapete da sala (em sua opinião, a peça mais aconchegante da casa), com as costas apoiadas contra o sofá, a caneca, agora fria, guardando um resto de chá também frio, abraçada pelas suas mãos, olhos abertos na escuridão do ambiente, quebrada apelas pela luz que emanava da cozinha, a qual havia deixado acesa. Mariana dizia não ter arrependimentos, não guardar ressentimentos, mas por vezes imaginava-se, em um ponto do passado, mudando alguma atitude sua, escolhendo outro caminho que não o percorrido. Presumia se finais alternativos seriam possíveis a partir disso. De súbito, fechava os olhos com força, balançava rapidamente a cabeça de um lado para o outro, como se isso bastasse para apagar todos esses pensamentos, todas essas hipóteses que a corroíam por dentro cada vez que emergiam de um lugar dentro de si, lugar que ao menos conhecia, o que impossibilitava que ela o destruísse, como bem o queria.
“Aquele desgraçado poderia ao menos ter me olhado nos olhos uma última vez antes de desviá-los para sempre dos meus”. Era isso que mais a machucava, era nisso que perdia horas de sono pensando. Os olhos de Pedro eram a coisa mais linda que os seus já haviam visto. Eram olhos que acalmariam tempestades somente ao fitá-las, mudariam o sentido do vento somente com um piscar, iluminariam o mundo com o seu brilho raro. Quando Pedro a olhava nos olhos, era como se aquela troca de olhares fosse a única coisa que existisse, como se aquele momento fosse o único indispensável, como se aqueles olhos fossem a única maneira de Mariana encontrar a sua paz. Não eram olhos grandes, mas eram grandes o suficiente para que Mariana se perdesse dento deles com uma facilidade maior do que sempre gostara. Odiava o modo como ficava vulnerável perto de Pedro, como ele a fazia perder os pudores, como ele desnorteava seus critérios. E ao mesmo tempo amava tudo isso. Amava sentir-se vulnerável ao seu lado, capaz de amar, de ter seu coração abalado por um simples suspiro que saísse de seus lábios. Ela, que sempre se julgou intocável, inabalável, indestrutível, adorava admitir que estivera errada durante muito tempo. Mariana não era intocável, apenas ninguém a havia tocado como Pedro o fizera.
Cinco e quarenta. Estariam dormindo juntos, como um só. Mariana estaria sentindo a pele de Pedro na sua, Pedro confundiria a sua respiração com a de Mariana. As pernas entrelaçadas representariam um laço ainda maior, que supunham ser incapaz de se desfazer. O amor não deixaria espaço para pesadelos. O sonho já foi real, e Mariana só percebeu isso depois de muito tempo - “depois que os tempos mudaram”. Mariana levantou-se, com um ar de apatia e resignação, dirigiu-se à cozinha, deixou a caneca sobre a pia, apagou as luzes, e foi tateando no escuro até seu quarto. Após deitar a cabeça no travesseiro, ao menos tentou induzir sonhos: o que ela queria era que os tempos não tivessem mudado tanto assim.
16.11.10
A visita

Depois de já ter organizado a sala tantas vezes, tirado o pó que encobria tanta coisa - que talvez devesse ter permanecido encoberta, por fim -, guardado retratos antigos na esperança cega de que ocultar memórias fosse igualmente simples, depois de ter comprado flores com novos aromas, tapetes com novas texturas e quadros com paisagens renovadas, ela percebeu que cada transformação trazia, como que atrelada à mão, várias invenções consigo. Invenções de desculpas, outro compromisso qualquer, com pessoas da mesma forma inventadas. Inventando para si própria, desde o princípio, um motivo que justificasse a visita e uma possível continuidade dela. Afinal, o sofá era de veludo nobre, as paredes eram claras, e a geladeira sempre estivera farta: não haveria motivos para o visitante recusar um próximo convite.
Mas o convite não era refeito. Ela não queria receber novamente o visitante. Não que a visita fosse de todo o mal. Ela sabia disfarçar o seu lado antissocial quando bem convinha - procurava manter-se sempre bem informada quanto às condições climáticas, já que conversar sobre o tempo era um remédio deveras eficaz contra silêncios constrangedores. O problema dela não estava em encantar, mas em ser encantada.
Foi justamente num dia de sala desorganizada, com o pó encobrindo cantos e retratos antigos, flores murchas, tapete velho e quadros vazios que ela recebeu um novo e inesperado visitante. Fosse esperado, não o receberia naquelas condições, com tais roupas, o cabelo por arrumar, a pele sem maquiagem nenhuma - apesar de saber que algumas marcas eram definitivas, resistiriam a qualquer tentativa de disfarce.
O visitante se mostrou tão eufórico e agitado de início que causou certo repúdio na anfitriã. Ela, que sempre fora do silêncio, via seus cômodos repletos de som, de uma vibração inédita. À medida que o visitante percebeu que não precisava se fazer notar pelo barulho, foi que ela o notou. Não havia a necessidade de mencionar uma tempestade iminente ou o calor insuportável tendenciando minimizar os silêncios constrangedores aos quais ela sempre fugira. Os silêncios não mais eram constrangedores, não havia do que fugir, não havia motivo para preenchê-los de palavras e acabar por perder tudo o que neles era dito. E visto. E respirado. E sentido.
Parecia que o visitante já conhecia cada peça da casa, e cada canto da anfitriã, sem esta tê-la/ter-se ao menos apresentado a ele. Ela chegou a esquecer-se do pó que recobria a superfície, das flores da estação passada, dos retratos que permaneciam em pé. De súbito, as coisas haviam adquirido nova dimensão: o que antes deveria ser reformulado a tempo para receber qualquer visita, naquele dia não era o motivo que retia o visitante junto a ela, como bem o sabia. E ela nem mesmo esperava que ele, de repente, trouxesse à sua vista a mão que mantinha atrás das costas com os dedos envolvendo meia dúzia de flores vivas e perfumadas, ou que acrescentasse alguma espécie de valor material à desorganização da sua casa. O visitante ditava a ordem dentro dela, sem precisar de qualquer gesto concreto, mesmo a distância.
Após um tempo que não se sabe ao certo quanto foi (inclusive o tempo tornou-se relativo), a despedida fez-se promessa de reencontro:
- Até a próxima, até logo. - ela disse, deixando transparecer na voz um misto de felicidade, pela visita que acabara de receber, e tristeza, sabendo que essa mesma felicidade da presença seria motivo de saudade na ausência.
Foi a primeira e única porta que ela abriu e não fechou após a despedida.
26.7.10
Por um arbítrio livre

Livre-arbítrio. Supostamente deveríamos ir e vir amparados pela segurança e liberdade que essa palavra evoca. Porém, com tantos valores e comportamentos questionáveis desse nosso tempo, feitos banais dada sua generalização, seria um perigo à própria raça humana termos livre-arbítrios completamente livres andando por aí. A parte ruim e injusta de todo esse emaranhado de livre-arbítrio reprimido são as vontades emudecidas não por representarem qualquer espécie de ameaça a outro ser, mas sim por ousarem contrariar as convenções pré-estabelecidas do que é certo e errado.
Existem padrões de comportamento que são indiscutíveis e assegurados por lei, devido à sua prática e principalmente à sua possível transgressão envolverem a vida de mais de um indivíduo, podendo colocá-la em risco. Porém, no que diz respeito à individualidade, a liberdade de escolha deveria prevalecer sobre as imposições sociais, desde que as conseqüências de tais escolhas não venham a ameaçar a própria integridade física e moral de quem as pratica.
No momento de tomar qualquer atitude para desvencilhar-se de um status quo infeliz, ainda que dentro dos "padrões", cuja origem já se perdeu e queda não se prevê, é preciso mais do que coragem: é preciso acreditar que vale a pena correr todos os riscos para ter seu desejo realizado. É nesse momento de hesitação que muitos infelizes permanecem infelizes, e passam a enxergar a felicidade como utopia, pertencente a uma realidade paralela, onde o acesso só não é restrito aos sonhos reprimidos, que poderão, enfim, brincar de serem possíveis.
Os infelizes não desistiram da felicidade, apenas têm medo do que podem vir a perder pelo caminho ao tentar encontrá-la. Não se deve confundir esse medo com uma covardia sem motivos. Na hora de pesar o que vale mais, a razão geralmente predomina sobre todo o resto, e acaba ditando o rumo a ser seguido. A felicidade, independentemente da razão, sempre tem um peso maior, e, justamente por pesar tanto, às vezes não se consegue carregá-la.
Apesar de todas as amarras e da correnteza contrária a ser enfrentada, lutemos pela nossa felicidade de maneira a torná-la cada vez mais palpável e da forma que menos nos exponha - julgamentos alheios não são encorajadores por natureza. Na pior das hipóteses, cada conflito nos preparará para o próximo, e conheceremos a nós mesmos como nunca. E, quem sabe, não encontremos, permeando esse autoconhecimento, aquilo que realmente estávamos procurando.
6.6.10
Passado x Presente x Futuro

O passado tem seu valor, porém... já passou! Quanto ao futuro, sofrer por antecipação ou deixar-se tomar pela ansiedade não farão com que ele se converta em presente mais rapidamente. Portanto, cuidemos bem do nosso único instrumento de transformação, o presente, para que ele seja uma excelente fonte de recordações e um caminho seguro para o destino que mais nos convenha.
31.5.10
Solidão: aprecie com moderação

A solidão não deve ser encarada como abandono ou, no outro extremo, auto-suficiência. Solidão é, acima de tudo, uma questão de autoconhecimento. Não que devamos ficar reclusos somente a fim de realizarmos uma pesquisa antropológica - não usemos a ciência como desculpa para uma introspecção patológica. Apenas saibamos usar a nosso favor as situações que nos foram impostas pelo destino (pelas quais, na maioria das vezes, somos os grandes responsáveis).
A falta de companhia não deve ser um obstáculo ou escusa para se deixar de ir ao cinema, ao teatro, à locadora, para se preparar uma comida gostosa, passar um café ou passear pelo parque em manhã ensolarada. Não devemos depositar a responsabilidade pela nossa felicidade integralmente nas outras pessoas. A nossa própria e única companhia deve ser, ao menos, suportável. Para isso, é indispensável prática, e muita coragem. Olhares piedosos ao adquirente de apenas um ingresso para uma sessão de cinema são os verdadeiros dignos de pena: esperam que os outros nos completem, quando já somos completos ao nosso modo. Quem não enxerga a sua completude, não conhece o próprio potencial, e acaba por se sub ou superestimar. Devemos buscar completudes semelhantes a que possuímos - a única coisa que os opostos atraem é desentendimento -, e fazer delas uma extensão da nossa, ampliando-a, não a completando.
A solidão, quando moderada, é altamente saudável, porém, não se recomenda seu uso indeterminado por possuir elevadas doses de amargura e acarretar rugas insuscetíveis de correção estética. Não tenhamos medo da solidão, mas sim de nos acostumarmos a uma vida inteira em sua única companhia.
17.5.10
Gigantes atados

10.4.10
Três parágrafos de drama puro e dispensável

O céu é dos mais azuis e não oferece nenhuma nuvem de resistência para a passagem dos raios de sol, que parecem intensificar-se ao anunciarem o final de semana. As sombras produzidas realçam texturas e formas esquecidas - inclusive as que deveriam assim permanecer (a escuridão é, por vezes, mais cômoda e agradável do que uma claridade tão reveladora e sincera). O vento frio que entra pela janela, resquício de uma semana de temperaturas atípicas ou prelúdio do inverno, enche o quarto de desconforto, uma angústia sem causa específica ou cura conhecida, mas que aflora sentimentos, dúvidas; angústia expressa em dedos inquietos a teclar e um balançar constante da perna cruzada, suspensa no ar frio.
Nem mesmo um dia aparentemente bonito, uma vida perfeita aos olhos de quem vê e um caminho que se diz promissor conseguem persuadir uma vontade louca de chorar. Compulsivamente ou baixinho, enrolando-se nas cobertas para abafar tanto sentimento nu que escorre em forma de lágrima, frágil à espreita de julgamentos e expectativas, extravasado diretamente do coração, reservatório pequeno pra tanta emoção. Convertem-se em lágrimas as palavras não ditas na hora exata, detentoras de proporções assombrosas quando silenciadas por tempo demais. Convertem-se em lágrimas as lembranças mais doces, que, ao escorrerem dos olhos e atingirem os lábios, percebe-se terem adquirido o sabor amargo da incompatibilidade, a ponto de tornarem-se uma espécie de utopia. Convertem-se em lágrimas os sonhos, um dia, menosprezados, os objetivos frustrados, as cordas do violão não dedilhadas, e as vocais, atrofiadas. A trajetória porosa e enrugada das lágrimas representando a imensa distância que separa quem, teoricamente, está próximo, assim como representa a igualmente imensa saudade que aproxima os distantes.
Depois de respingar tanta angústia na cama, limpa-se na manga da camiseta o restinho de sentimento que ainda umedece a face e respira-se fundo, como aquela primeira grande inspirada que nos trouxe à vida. Mesmo com a claridade diminuída e as sombras atenuadas, são elas que revelam os reais motivos de preocupação, os problemas merecedores de um choro torrencial, seguido de uma resolução à altura. Eternos insatisfeitos, egocêntricos por excelência, nossos olhos deveriam chorar menos, enxergar mais. Porém, além de insatisfeitos e egocêntricos, somos, principalmente, humanos, abrigando a maior das ambiguidades dentro de nós - racionais, quão dramáticos somos!